É tempo de Diálogo: em defesa da Psicologia no CRP-PR!

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Qual a importância das Ciências Humanas e da Universidade gratuita?

A Ciência é a manifestação sistemática e concreta da racionalidade humana. Nos saberes oriundos da Ciência - quando orientada pela Ética - a humanidade avança. Supera desafios, reduz mazelas de toda ordem, amplia a vida como um todo e desbrava novos horizontes. Pela Ciência, a realidade objetiva e subjetiva se transforma.

Cabe destacar que a divisão das Ciências em áreas do conhecimento (social, biológica, exatas, humanas, etc.) ocorre pois, ao questionarmos os fenômenos e procurarmos explicações a partir da razão, não conseguimos abarcar todos os campos do real. Sendo assim, não há hierarquia entre as áreas, não existe uma mais importante do que a outra, todas têm o seu papel.

As Ciências Humanas ocupam lugar decisivo nas mudanças sociais e nas relações humanas. Para se entender e atuar sobre a sociedade, a análise e a reflexão se fazem fundamentais, pois se dedicam ao estudo e transformação da realidade humana em amplas dimensões, como o trabalho, a família, a cultura, a educação, a afetividade, a existência, a história e tantas outras.

Ainda, as Ciências Humanas – entre elas a Filosofia, a Sociologia, a Psicologia – desnudam sistematicamente as estruturas sociais desiguais que pretendem, com seu pulso opressor, dar caráter de naturalidade às injustiças e misérias do mundo. O entendimento em profundidade das dinâmicas sociais é o que desenvolve pessoas autônomas, críticas e atuantes na transformação de suas realidades individuais e coletivas.

E por que a Universidade é um importante espaço para tal desenvolvimento? Porque é um espaço de produção e universalização do conhecimento. Um lugar de convivência entre os diversos campos do saber para uma análise crítica da realidade. Portanto, precisa ser um espaço de pluralidade, de diversidade, de amplo acesso a todas as classes sociais. Por isso a defesa da Universidade pública, de qualidade, laica, gratuita, acessível, vinculada a políticas de inclusão via ações afirmativas.

A defesa das Ciências, em especial das Ciências Humanas, e da Universidade é a defesa da humanidade. O retorno às trevas medievais só interessa às estruturas que perversamente se beneficiam do retrocesso civilizatório.

É tempo de Saber. É tempo de Diálogo!

1º DE MAIO É DIA DAS TRABALHADORAS E DOS TRABALHADORES!

Sabemos que trabalho e sociedade se transformam a partir da ação humana. Por isso não podemos considerar a data de hoje como “dia do trabalho”, mas sim como dia das trabalhadoras e trabalhadores, centrando o foco no elemento humano das relações criativas e produtivas.

Na atual conjuntura de aumento do desemprego e precarização das relações de trabalho, a data nos convoca a refletir o papel das psicólogas e psicólogos como agentes de transformação social, comprometidas com a promoção do trabalho digno, contra as formas de opressão pelas relações desiguais de produção.

Nesse sentido, reafirmamos a importância das instâncias representativas da categoria, que devem promover orientações e defesa da Psicologia a partir da reflexão crítica e da construção coletiva, não permitindo um debate descontextualizado que leve as profissionais a uma atuação meramente utilitarista com as trabalhadoras e trabalhadores.

Afinal, nós, psicólogas e psicólogos, nos reconhecemos como classe trabalhadora e, em articulação com outras entidades, precisamos fazer frente à precarização das condições e relações de trabalho, à defasagem salarial, aos cortes nas políticas públicas, ao exercício ilegal da profissão, ao repasse irrisório dos planos de saúde e a tantas outras retiradas de direitos que afetam nossa atuação.

Vamos dialogar?

Redução de Danos

Em 07 de maio celebra-se o dia internacional da Redução de Danos! Mas o que é isso?

É uma forma de cuidado; é um movimento político e estas duas perspectivas são indissociáveis. A Redução de Danos (RD) entende que o uso de drogas, em sua natureza mais ampla, é parte da nossa sociedade de tal forma que aqueles que delas fazem uso são protagonistas em sua busca de uma vida sadia.

Esse protagonismo assume diversas formas, seja na busca por tratamento quando esse hábito foge ao controle, podendo contemplar ou não a abstinência, seja no acesso à informação sobre as formas mais seguras de consumir a droga de escolha ou mesmo na qualidade de drogas ilícitas, sujeitas a diversas adulterações no mercado clandestino, portanto, é também antiproibicionista.

Redução de Danos procura nos lembrar constantemente que há uma pessoa, por trás do uso, abuso ou dependência de droga, viva, complexa e possuidora de direitos e de escolhas legítimas.

Direitos estes que vêm sendo atacados pela "nova" Política Nacional sobre Drogas - PNAD, e projetos como o PLC 37/2013, que entre seus principais retrocessos estão: a não inclusão da atenção psicossocial extra hospitalar, junto com o tratamento ambulatorial, como forma prioritária de tratamento dos dependentes de drogas; previsão de internação involuntária pelo prazo de até três meses; incorporação das “comunidades terapêuticas acolhedoras” no SISNAD; previsão de oferta de projetos terapêuticos à/ao usuária/o ou dependente de drogas que visam abstinência, sem qualquer menção às outras formas de cuidado e atenção para pessoas que apresentam problemas em decorrência do uso de drogas e que não estão abstinentes, desconsiderando estratégias de redução de danos sociais e à saúde.

Diante deste cenário, uma data como essa não pode passar sem menção. Por isso dizemos NÃO aos retrocessos propostos na política sobre drogas, sem debate e estudo sobre o uso de drogas e sobre o cuidado à/ao usuária/o em nosso país.

QUE O DIÁLOGO PREVALEÇA.

Maternidade

Um dos aspectos mais idealizados da vida humana na atualidade é a maternidade.

A ideia de que este seria o destino da realização feminina; a romantização do amor materno, que seria instintivo; a ideia do amor abnegado; e os crescentes movimentos de oferta de “manuais de como ser mãe e criar filhas/os felizes” são exemplos da idealização e dos imperativos decorrentes impostos às mulheres.

Em primeiro lugar, é evidente que a maternidade não é o único destino para realização feminina, inclusive muitas mulheres optam por não ter filhos, por diversos motivos e se autorizam a não responder a essa cobrança social.

A romantização do amor materno, a partir da ideia de que ele se origina no instinto e não de uma produção singular de desejo, pode produzir alguns impasses, pois muitas vezes as mulheres não se reconhecem tão plenas e felizes com a gestação, parto e, mais comumente, no pós parto. O amor materno não escapa da ambivalência presente nas demais formas de amor.

A ideia da abnegação impõe às mulheres mães que abram mão de si próprias pelas/os filhas/os. Voltar-se a outros aspectos da própria vida (como o mundo do trabalho) é tão condenado por parte da demanda social como não fazer este retorno. É como se houvesse um caminho idealizado a ser seguido, obstaculizando que cada mulher mãe se invente mãe e mulher.

Os “manuais” também trazem consequências, porque a vida corre mais desordenada do que as letras colocadas nos livros como ideais a serem seguidos. Assim, acompanhamos mulheres que se perdem de si próprias como mães ou perdem os próprios bebês do necessário reconhecimento.

Ou seja, estes discursos não ocorrem sem efeitos na subjetividade e podem aparecer como sofrimentos. A forma com que cada mulher mãe articula a maternidade em seu desejo e encontra respostas para os imperativos é única e nós, da psicologia, podemos contribuir de forma bastante importante:

A escuta que podemos ofertar nos diversos espaços de atuação de psicólogas/os (seja na clínica, no hospital, nas unidades de saúde, nos espaços escolares ou educacionais, nos equipamentos da assistência social, no mundo do trabalho, etc.) que favoreçam a construção singular e a autorização de cada mulher diante da demanda de ser mãe para ser reconhecida mulher. 

Operar no laço social em prol da desconstrução da idealização da maternidade e alegorias aqui exemplificadas. Podemos atuar a partir da produção discursiva, da pesquisa acadêmica, da transmissão e criando espaços coletivos.

É tempo de diálogo, em defesa da Psicologia, para a atuação em importantes demandas sociais.

*Esse texto foi escrito pela Andreia Moessa de Souza Coelho, psicóloga (CRP 08/08896), especialista em Psicanálise, Perinatalidade e Parentalidade, fundadora de Instituto de atenção materno-infantil em São José dos Pinhais – PR e componente da chapa 11 – Diálogo: em defesa da Psicologia, que concorre à gestão do CRP-PR.

#PraCegoVer Desenho do rosto de uma mulher de perfil com os cabelos ao vento e borboletas voando ao seu redor

17 de maio - Dia de Combate à LGBTfobia

LGBTFOBIA mata!
É tempo de mudar esta realidade.

Todas as pessoas sofrem e adoecem em algum momento da vida. É raro quem nunca teve que lidar com a dor emocional de um/a familiar ou amiga/o. Ainda assim, alguns grupos e classes estão mais vulneráveis e precisam percorrer um caminho mais complexo que os demais para ter uma vida plena. Entre estes grupos, a comunidade LGBT+ historicamente enfrenta desafios que são atípicos a maior parte das pessoas e tem muito mais dificuldade em encontrar apoio e suporte entre seus amigos e família. 

Um estudo conduzido em 2018 pela JAMA Pediatrics com 2,5 milhões de jovens apontam que tentativas de suicídio são 3,5 vezes mais frequentes entre jovens LGBTs e de acordo com a Scientific Pediatrics os suicídios que chegam a morte são 6 vezes mais comuns. O relatório RaRE, estudo conduzido ao longo de cinco anos encomendado pela instituição filantrópica de saúde mental LGBT Pace, revelou que 34% da população jovem LGB pesquisada (com menos de 26 anos) tinha tentado suicídio pelo menos uma vez na vida. O índice entre jovens transgêneros* chegava a 48%. Isso contrasta com 18% entre heterossexuais e 26% entre a população jovem cisgênera**.

As maiores causas identificadas foram homofobia ou transfobia e "dificuldade de ser LGBT+ na família e na escola". O relatório RaRE apontou ainda que 57,1% da população LGB e 85,2% das pessoas trans já se automutilaram pelo menos uma vez. Outro estudo aponta que mulheres lésbicas e bissexuais usam o álcool para "controlar sentimentos desconfortáveis ou indesejáveis... em relação a preocupações ligadas à atração pelo mesmo sexo": 37,1% das mulheres do estudo consomem bebidas alcoólicas em níveis prejudiciais à saúde. As causas envolvidas, mais uma vez, são experiências na adolescência e a ligação feita entre sexualidade e o medo das reações ao se assumir, além do consumo de álcool como uma muleta para lidar com expectativas familiares heteronormativas. 

No Brasil, 420 pessoas LGBT+ morreram devido a homofobia. Isso pode parecer pouco, perto do número total de mortes no Brasil, mas precisamos considerar que essa mesma população também é vítima da violência generalizada, falta de saúde pública, violência no trânsito e mortes naturais. Nos casos de violência, 59% dos suspeitos são da própria família da vítima. 

Considerando a notícia de uma gravidez, é comum já se querer saber se a nova pessoa a compor a família é “menino” ou “menina”. A ansiedade aumenta na hora de uma ecografia. Há "chás de revelação" organizados, com bolo dividido em duas cores: rosa (menina) e azul (menino). Um simples evento social já reforça a ideia de divisão binária da humanidade e seus preconceitos do que é “adequado” para cada gênero, com base na identidade biológica. Quando se constata o sexo biológico, em geral, já é escolhido nome e começam escolhas de enxoval com cores e brinquedos “próprios” para cada sexo/gênero.

Mas muitas pessoas não se identificam com o sexo biológico ou com o binarismo. E quanto à atração por outra pessoa, seja sexual e/ou romântica não se dá em relação ao sexo (biológico) oposto, a casa cai e a violência, em suas diferentes formas, passa a fazer parte do cotidiano desta pessoa. E, a primeira violência começa, geralmente, em casa. O segundo espaço social – a escola – lugar de assédio, tormento e exclusão. A violência cresce e a média de vida, em especial das pessoas trans, cai. Muitas vidas terminam em suicídio ou em histórias absurdas que vemos nos noticiários policiais, com espancamentos, assassinatos antecedidos por atos de crueldade. 

Como manter a saúde mental em um mundo tão preconceituoso e violento? Como lidar com esta realidade quando as políticas públicas (poucas conquistadas) são ameaçadas ou destruídas por uma sociedade homofóbica, machista, misógina e que prega a violência? 
Dias difíceis para quem sonha com um mundo mais democrático, inclusivo, diverso e acolhedor.
Se o meio sociocultural não é acolhedor e até aversivo; excludente e violento, como alcançar uma vida plena? Tem que ter muita resiliência, formas de resistência e rede de apoio para superar os desafios que são multiplicados para a população LGBTI. 

Nós, da chapa 11 - Diálogo: em defesa da Psicologia, consideramos todas as formas de existência e nos posicionamos de forma contrária a todas as formas autoritárias e excludentes. Hoje, diante dos retrocessos, reafirmamos o nosso compromisso de combate a todas as formas de violência e opressão contra a população LGBT+.

*pessoas que não se identificam com o seu sexo biológico.
**pessoas cuja identidade de gênero coincide com o sexo biológico

#PraCegoVer Imagem de uma grande bandeira de arco-íris estendida no chão, com várias cruzes brancas em cima. Sobre a imagem estão escritas as frases: LGBTfobia mata! É tempo de mudar essa realidade.

18 de maio - Em defesa da luta antimanicomial

“Ô seu Manoel, tenha compaixão
Tira nós tudo desta prisão
Estamos todas de azulão
Lavando o pátio de pé no chão

Lá vem a boia do pessoal
Arroz cru e feijão sem sal
E mais atrás vem o macarrão
Parece cola de colar balāo

E mais atrás vem a sobremesa
Banana podre em cima da mesa
E mais atrás vem as funcionárias
Que são umas putas mais ordinárias.”
(Música cantada por Sueli, internada em manicômio, no documentário: Em nome da Razão, 1979) 
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São os Anos 70. 
Ditadura Militar. 
Holocausto Brasileiro. 
Brasil vivia rodeado de muros, armas, repressões concretas e invisíveis. As humanidades? Aprisionadas pela produção contínua de desumanidades.
E a Psicologia, onde estava? 
As/os trabalhadoras/es da Psicologia se arrastavam em passos lentos na busca de transformação da realidade e de suas práticas.
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São os anos 90.
Democracia.
Reforma Psiquiátrica
E a Psicologia, onde estava?
Psicologia e sua classe de trabalhadoras/es caminhavam de cabeça erguida construindo novas práticas, libertando as humanidades de suas produções desumanizadoras. Transformando a realidade e a sociedade.
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O ano é 2018/2019.
Desmonte.
A política de saúde mental sofre. 
São diversos retrocessos na Política Nacional de Saúde Mental. As produções das humanidades correm sérios riscos de voltarem a serem aprisionadas.
E a Psicologia?
Essa agora possui princípios fundamentais, que organizam nosso trabalho enquanto psicólogos e nos dizem nitidamente de que lado devemos estar . 

“A/O psicóloga/o baseará o seu trabalho no respeito e na promoção da liberdade, da dignidade, da igualdade e da integridade do ser humano, apoiado nos valores que embasam a Declaração Universal dos Direitos Humanos” esta/e, “trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.” (CFP, 2012)

É inadmissível o massacre das humanidades retornar.
A chapa Diálogo: Em Defesa da Psicologia - 11 segue lutando por práticas que garantam a humanização. 

Manicômios nunca mais, trancar não é tratar!
É Tempo de cuidado em liberdade.
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#PraCegoVer Imagem abstrata com várias formas que lembram pessoas e flores desenhada em sessão de arte terapia pela pintora e militante Maria do Socorro Santos, que foi paciente psiquiátrica.

18 de maio: em defesa da proteção integral de crianças e adolescentes

Hoje é o dia que marca o combate ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes. A data faz referência ao assassinato de Araceli, aos 8 anos de idade, em 1973.

Infelizmente, ainda são altos os índices de violência sexual contra crianças e adolescentes no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, foram 184.524 ocorrências entre 2011 e 2017. Em 2018, o Disque Direitos Humanos (Disque 100) informa que recebeu 17.093 denúncias, e em 2019 já chegam a 4.736.

Para enfrentar essa realidade, precisamos avançar na efetivação da Proteção Integral de crianças e adolescentes, conforme previsões do Estatuto da Criança e Adolescente - ECA.

Reconhecemos que, nas últimas décadas, já tivemos conquistas. O próprio ECA é um importante símbolo de mudança de paradigma, passando-se a considerar crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e ampliando as ofertas de programas e serviços públicos.

Contudo, tais avanços sequer chegaram a consolidar um cenário efetivo de proteção integral e já enfrentamos retrocessos e ameaças: o congelamento de gastos públicos nas áreas da Assistência Social, Saúde e Educação, o desmantelamento do SUAS e do SUS, o cenário de desresponsabilização do Estado na execução de políticas sociais que garantam o acesso a direitos fundamentais.

Propostas legislativas com a roupagem de proteção à infância têm sido apresentadas em um movimento de destruição do ECA. Propostas que desobrigam as políticas sociais de atuar na preservação dos laços familiares das crianças e dos adolescentes, propostas que regridem à lógica do assistencialismo, da dependência e da exclusão social, que comprometem o acesso e a qualidade da educação. É todo um conjunto de desproteções que contribuem para vulnerabilizar crianças e adolescentes e que precisamos enfrentar.

É tempo de reafirmar o nosso compromisso de luta intransigente pelo ECA em sua integralidade, pela proteção integral de crianças e adolescentes.

#PraCegoVer Desenho feito por uma criança: uma menina segurando uma grande flor amarela, que é o símbolo do combate ao abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. Na imagem está escrito: 18 de maio - em defesa da proteção integral de crianças e adolescentes.

Nota de Repúdio: "Adoção na Passarela"

A chapa 11 - Diálogo: em defesa da Psicologia manifesta REPÚDIO ao evento “Adoção na Passarela”, que aconteceu esta semana (21/05) no Shopping Pantanal em Cuiabá/ MT, com a intenção de dar visibilidade a crianças e adolescentes, de 4 a 17 anos, que estão aptas para a adoção.


Há outras ações/ campanhas semelhantes que acontecem em outros estados em que crianças e adolescentes tem sua imagem exposta e divulgada em sites, redes sociais e também em estádios de futebol. 
No evento, crianças e adolescentes percorreram uma passarela, em busca de uma família. Foram colocados em uma vitrine, como se estivessem à venda, para sensibilizar adultos a adotá-las. Oferecem, em um espaço comercial – shopping, modelos e padrões, de que é necessário ser bonita/o e estar arrumada/o para ser aceita/o. Ou seja, a ação objetifica crianças e adolescentes, tornando-os disponíveis para a escolha dos adultos, a partir da aparência, mercantilizando a adoção.


A iniciativa fere princípios do ECA (art. 17) e direitos humanos de crianças e adolescentes ao não preservar a imagem, mesmo que sob o pretexto de viabilizar outro direito, o da convivência familiar e comunitária. 
Não há dúvida de que ações devem ser desenvolvidas com o objetivo de promover a adoção tardia. Contudo, a iniciativa prioriza a futilidade ao invés de proteger crianças e adolescentes, exibir imagens padrões ao invés de promover a construção de vínculos, promove um leilão, em um movimento contrário à proteção integral de crianças e adolescentes. 


A lógica está invertida, a exibição das crianças e adolescentes, coloca-os no lugar de quem irá, por si, por sua aparência, solucionar a sua condição, e encontrar pessoas interessadas na sua adoção. Esta responsabilidade não é da criança e do adolescente!


Ao apresentarem contestação às críticas relacionadas ao evento, as entidades proponentes, apontam que já é a segunda edição do evento e que há casos de sucesso, tais como, dois adolescentes adotados. Mas, as crianças e adolescentes que não obtiveram êxito? Como ficaram? Os impactos psicológicos, sentimento de frustração, prejuízos à autoestima em decorrência da ação?


Sob o pretexto do desenvolvimento de uma atividade lúdica, crianças e adolescentes, acolhidos institucionalmente, são submetidos a condições vexatórias. É necessário dar visibilidade ao problema social da adoção tardia, não a crianças e adolescentes.


O tema da adoção é revestido de muito apelo popular e compreendido, culturalmente, como uma prática salvacionista, que irá retirar as crianças e os adolescentes do sofrimento e da invisibilidade. A adoção é um processo complexo e como tal, deve ser revestido de cuidado, afeto, convivência, amor, diálogo e principalmente deve ser acompanhado de forma singular, protegida e tecnicamente.
#Pracegover Três crianças correndo num vasto gramado. Sobre a figura o texto: Diálogo em defesa da Psicologia.

MAIO AMARELO: em defesa de um trânsito seguro

Em pleno Maio Amarelo, mês em que se destaca a importância da conscientização por um trânsito mais seguro, precisamos aprofundar o diálogo sobre a gestão da política de mobilidade no país.

O aumento do prazo de validade da Carteira Nacional de Habilitação de 5 para 10 anos tem dividido muitos profissionais de várias áreas, sendo um dos assuntos mais polêmicos do momento. Nesse cenário, é urgente refletirmos e defendermos o ponto de vista da psicologia do trânsito.

É necessário compreender em contexto histórico que em outro governo existiu o veto desta prática profissional, a qual foi reconquistada com muito esforço e embasamento cientifico, porém estamos diante da possibilidade de mais um retrocesso.

A Psicologia do Trânsito, que caminha para ser uma Psicologia do Tráfego, compreendendo a situação de mobilidade humana necessária nos dias de hoje, pode ser enfraquecida com tal revisão de validade.

Entende-se que a validade da avaliação psicológica pericial deve considerar o ser humano em constante movimento, ou seja, seus fenômenos psicológicos não ocorrem de maneira estática. Portanto, o período de 10 anos passa a ser um vácuo muito grande de não acompanhamento da saúde mental deste condutor, tornando-o vulnerável em seu cotidiano.


Os acidentes de trânsito são em sua maioria em decorrência do fator humano e não se trata unicamente do motorista profissional, mas sim do condutor corriqueiro que não tem avaliações sistemáticas e educação continuada para esse contexto.

Quando falamos em avaliação psicológica é surpreendente a quantidade de pessoas que não apresentam entendimento do contexto do trânsito e seus riscos, bem como o desconhecimento de suas condições emocionais frente a situações de desafio.


Como um ambiente com regras e normas bem estabelecidas e figuras de autoridade atuantes é impensável que se tenham pessoas com dificuldade de lidar com autoridade e frustrações.
O sentimento de coletividade e partilha de espaço muitas vezes desaparece dos condutores. No momento avaliativo todos esses fenômenos tem a possibilidade de serem detectados em virtude da segurança do próprio condutor e dos outros que dividem as ruas com eles.

O cidadão vem apresentando dificuldades em ser avaliado devido a não aceitação de frustrações,bem como, está com pouco autoconhecimento, dificuldades em compreender a longo prazo os efeitos de suas escolhas, refletindoem posicionamentos com pouca reflexão.

Nós da psicologia há tempos falamos sobre BOURNOUT, TEPT, TAG, falta de educação financeira, falta de empatia e falta de consciência social e cabe a nós agora firmar os pés na validade de CNH para podermos continuar no caminho da psicologia do Tráfego que pode sim ser efetiva na prática psicoeducacional sobre o ato de beber e não dirigir, sobre os limites de velocidade e riscos em ambiente não adequados, limites e condutas com leis e autoridades.
Que são também reflexos de muitos dos fenômenos psicológicos que nós psicólogos nos colocamos à disposição de assistir como dependência química, personalidades disfuncionais.

A saúde mental do condutor dita a saúde do nosso trânsito, portanto ser negligentes nesse ambiente demonstra falta de interesse e investimento na qualidade de vida e qualidade de consciência social do cidadão, pois aquele que compreende tomada de decisão a longo prazo, consequências destas, reflete e está em gozo de boas condições está apto a ter boas escolhas para si e consequentemente para os outros.

É urgente dialogar a respeito de todos os lugares ocupados pelos psicólogos e defender a prática exclusiva com ética e cientificidade.

#PraCegoVer imagem de uma via pública ao anoitecer, com as luzes dos veículos que por ali passam. Na frente, um semáforo com a luz verde acesa. Ao fundo, prédios.

"Nova" política sobre drogas: por que precisamos contrapor?

O decreto n.º 9.761/2019 e agora a Lei 13.840/2019, sancionada em 5/6, vieram para instituir uma “nova” Política sobre drogas no Brasil (impossível não colocar entre aspas dado seu caráter retrógrado).

O tema das drogas e seus contingentes é objeto de estudos de várias ciências, desde aquelas com enfoque nos compostos químicos das substâncias até aquelas que valorizam especialmente a subjetividade de usuárias/os. A psicologia, dentre estas, é de suma importância, pois busca revelar, em esforço interdisciplinar, todos os aspectos do uso de drogas.

As “novas” normativas justificam suas medidas pelo suposto crescimento do uso de drogas “independente das questões de gênero, idade, espaço geográfico ou classe social” – diz o decreto. Esta é uma afirmação equivocada. O uso danoso de drogas lícitas e ilícitas tem maior impacto em pessoas mais pobres. Sendo assim, uma legislação que não é capaz de olhar de forma abrangente para o fenômeno vem instituir uma política que não combate as drogas, mas sim as pessoas pobres.

Esta política que se intitula “nova” diz reconhecer a relevância dos estudos científicos, mas ignora que a redução de danos é a estratégia mais moderna, reconhecida cientificamente, para se trabalhar com a questão das drogas e seus efeitos sociais. Vale lembrar que a pesquisa da Fiocruz sobre o uso de drogas no país, que poderia servir de subsídio para uma política séria e respaldada em dados levantados com critérios científicos, foi sumariamente ignorada pelo governo. Mais do que isso, foi tirada do ar!

A “nova” política incita, por diversas vezes, o desenvolvimento da “espiritualidade” como tratamento e prevê auxílio financeiro a comunidades terapêuticas religiosas (item 5.2.6 do referido decreto). No entanto, no último Relatório de Inspeção Nacional em Comunidades Terapêuticas (CFP/2017), há o registro de várias denúncias contra essas instituições pela violação dos direitos humanos, por tratamentos que incidem no trabalho forçado, entre outras séries de maus-tratos que ferem o princípio da dignidade humana. A questão não é o caráter religioso em si, mas a falta de fundamentação científica para definição dos métodos de tratamento, atividades e tempo de permanência, a falta de controle social e a preocupação que não sejam espaços efetivos para o acolhimento e a (re)inserção social.

Ainda, o caráter punitivo da “nova” política possibilita uma controversa ampliação da concepção de tráfico de drogas, introduzindo “circunstâncias sociais e pessoais” para a identificação de “criminosas/os” (item 2.3). Nesse ponto, é preciso olhar para a questão socioeconômica e racial: o que se trata aqui é da demonização das drogas ilícitas em associação com a população pobre e negra, tratada como descartável em um plano higienista que se arrasta desde a pós-abolição. Em outras palavras, trata-se da criminalização da pobreza e do genocídio da população negra.
Não à toa, quem assina tais medidas são, em sua maioria, homens brancos, ricos, juristas, militares, médicos, que se dizem cristãos. Estes que se reúnem para decidir o futuro de milhares de brasileiras/os cuja complexidade abrange várias cores de pele, muitas interpretações religiosas, situações econômicas e condições históricas muito distintas desses políticos que decretam o destino daquelas/es que se envolvem com o uso de drogas.

Ademais, as decisões governamentais aqui destacadas descaracterizam o avanço tecnológico das políticas públicas em saúde mental e ferem os direitos dos usuários a um tratamento com qualidade. Um exemplo é a ampliação das possibilidades de internação involuntária, envolvendo profissionais das políticas públicas de Saúde e Assistência Social nessa seara. Importante destacar que a internação involuntária, se fundamentada, pode ser utilizada em caráter de exceção e transitório quando esgotado o manejo dentro da Rede de Atenção Psicossocial. Mas não deve ser a regra e não pode ser compreendida como a solução para os impactos sociais da questão das drogas.

Diante deste cenário, cabe à Psicologia em seu compromisso social confrontar essa política opressora, defendendo a promoção do cuidado, da liberdade e da saúde. Por isso, pautamos a necessidade de um atendimento centrado na/o usuária/o, a partir de um projeto terapêutico compartilhado que compreenda a complexidade das relações sociais existentes em seus espaços de vivência.

#PraCegoVer #LegendaAcessível foto de uma parede pichada com a frase “trancar não é tratar”! Sobre a imagem, está escrito: “Nova” política sobre drogas e, no canto inferior direito, há a logomarca da chapa Diálogo: em defesa da Psicologia.

12/6: a Psicologia em defesa das crianças e adolescentes

Em 12 de junho celebra-se mundialmente o Dia de Combate ao Trabalho Infantil, data instituída pela OIT em 2002.
Por que está data é tão importante, à luz da Psicologia?
Primeiro porque o estudo sobre desenvolvimento infantil nos mostra que, ao contrário do que acredita parte da sociedade, o trabalho precoce não é educativo, não “forma caráter”, nem contribui para a formação profissional no futuro das crianças.

A lógica do trabalho, das relações de produção, é prejudicial ao desenvolvimento afetivo e social das crianças: o tempo da infância é o tempo do brincar, do lúdico, da construção das relações e da compreensão sobre o mundo.
Esses processos não podem ser soterrados pelas relações de cobrança e da produtividade.

Além disso, sob a ótica do compromisso social da Psicologia, não podemos deixar de nos ater ao cenário de desigualdades no qual emerge o trabalho infantil. Principalmente nos países considerados economicamente periféricos, a situação de pobreza de muitas famílias leva as crianças ao trabalho como complementação da renda doméstica. Isso acaba por diminuir seu rendimento escolar, prejudicar sua saúde, prejudicando a inserção futura no mundo do trabalho, criando um ciclo de miséria de difícil superação.


Os dados são alarmantes: o último levantamento do IBGE aponta para um número de 2,5 milhões de crianças e adolescentes em situação de trabalho precoce no país.

Como as organizações, movimentos e conselhos de psicologia podem contribuir para o combate a essa violação de direitos?
Em primeiro lugar, orientando a atuação de psicólogas/os para a superação deste cenário a partir de sua prática profissional. Além disso, propondo e participando de campanhas para informação e sensibilização de diversos setores sociais sobre o tema, e, ainda, atuando na defesa das políticas públicas para que tenhamos profissionais atuantes, e com condições de trabalho, para o enfrentamento ao trabalho precoce em várias frentes (política do trabalho, saúde, educação, assistência social, sistema de justiça, entre outras).

#PraCegoVer #LegendaAcessível dois meninos jogam bola sorrindo em um brinquedo inflável, com água sobre a lona. Do lado direito da imagem está escrito: 12/6 dia do combate ao trabalho infantil. Abaixo, a logo da chapa 11 - Diálogo: em defesa da Psicologia.

STF criminaliza LGBTfobia

Hoje é dia de uma vitória importante para a população LGBTI+!

O STF reconhece a LGBTfobia como crime análogo ao racismo, já que ainda não existe no Brasil qualquer legislação que trate de crimes motivados pela orientação sexual.

Durante a votação, o Senado interveio para protelá-la, com a justificativa de que um projeto de Lei sobre a temática teria avançado na casa, após ser aprovado na Comissão de Constituição e Justiça. Contudo, há anos a população LGBTI+ espera por esta notícia, como pronunciou o Ministro Barroso: “quem é atacado, quem é discriminado, tem urgência”.

A LGBTfobia causou, só em 2018, 420 mortes de lésbicas, bissexuais, gays e pessoas trans no país, sendo 320 homicídios (76%) e 100 suicídios (24%). Os dados são do relatório do Grupo Gay da Bahia, que recolhe estatísticas há 39 anos. 
E a LGBTfobia, mesmo presente em diversos espaços, ainda é subnotificada e não é reconhecida, em muitos casos, como violência.

Em casa, no trabalho e nas ruas, pessoss LGBTI+ vivenciam assédios, estupros corretivos, agressões, o medo de que o preconceito prejudique sua atuação profissional e tantas outras violências ainda invisibilizadas.

Em que se pesem diversas reflexões necessárias sobre a abrangência e adequação da lei, como será sua aplicação, bem como o caráter punitivista da legislação brasileira, a medida é sim uma grande conquista, pois admite que preconceito e a discriminação são problemas sociais que devem ser enfrentados pelo Estado.

 

A Psicologia tem o compromisso ético-político de enfrentamento ao preconceito, violência e exclusão vivenciados pela população LGBTI+, bem como no reconhecimento da diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero.

A chapa 11 – Diálogo: em defesa da Psicologia, aponta seu compromisso em estar vigilante pelos direitos da população LGBTI+, no enfrentamento às violências, no combate às diversas formas de expressões de discriminação e no processo de visibilização das existências LGBTIs.

#PraCegoVer #LegendaAcessível na imagem está escrito “Homofobia é crime” sobre a bandeira LGBTI+. No canto inferior direito há a logo da chapa Diálogo: em defesa da psicologia.

É tempo de defender a igualdade de gênero!

A Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019 trouxe à tona diversas questões que, sem dúvida, devem estar na agenda de uma Psicologia comprometida socialmente.

A história do Futebol Feminino profissional é muito recente no Brasil. Até 1983, a prática era proibida no país, através do decreto-lei 3.199 de 14 de abril de 1941, criado na era Vargas.

Talentos apenas recentemente começam a se destacar. Ainda assim, Marta “já foi escolhida como melhor futebolista do mundo por seis vezes, sendo cinco de forma consecutiva. Um recorde não apenas entre mulheres mas também entre homens. (...) Desde 2015, é a maior artilheira da história da Seleção Brasileira (contando a Masculina e a Feminina) com 118 gols.

No duelo entre Itália e Brasil, pela fase de grupos da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019, marcou seu décimo sétimo gol, consagrando-se como a maior artilheira da Copa do Mundo de Futebol Feminino e também a pessoa com o maior número de gols em Copas do Mundo (entre homens e mulheres). Além disso, é a primeira (e até hoje única) pessoa a marcar em cinco edições diferentes do torneio (considerando homens e mulheres).” (Wikipedia).

Mesmo com fatos históricos de tamanha grandeza para o mundo dos esportes, persistem ações para a manutenção da condição subalterna feminina.


Acontece no cotidiano de muitas mulheres, e também das atletas do campeonato, piadas racistas por conta de seus cabelos, piadas por estarem usando batom, entre outras. Atletas que, em vez de serem conhecidas e reconhecidas pela sua competência profissional, são avaliadas e reduzidas à sua aparência, além de negligenciadas como profissionais do esporte. Primeiramente, é importante destacar que nós não precisamos atender a imposição de um padrão estético!

Outra questão fundamental, diz respeito ao salário diferenciado entre homens e mulheres, que acontecem no âmbito esportivo, tal como em tantos outros espaços. Sem falar das condições inferiores, as quais são expostas em treinamentos, concentrações, hotéis, etc., além das parcas coberturas de imprensa.

A comparação entre o futebol feminino e o masculino não é possível, neste cenário, pois é desigual. A luta pela igualdade de gênero marcou esta Copa do Mundo de Futebol Feminino. Vimos Marta, na comemoração de um gol, apontar para as chuteiras personalizadas com um símbolo pela igualdade de gênero no esporte. Apesar de conquistar números que a eleva como a grande estrela das copas, Marta se coloca como uma mulher, que vai além das conquistas individuais, que firma seu brilho na luta pela igualdade de gênero.

Experiências de vida, de muitas das jogadoras, que viveram em famílias monoparentais femininas, que precisam conciliar a maternidade com a vida profissional, já que em grande parte, são as mulheres as cuidadoras principais das crianças. Mulheres que vivenciam a opressão cotidiana, que são colocadas em um lugar de inferioridade no casamento, na profissão, na sociedade. Mulheres que são cobradas em renunciar de suas vidas em detrimento do exercício da maternidade. São questões que se apresentam na prática da Psicologia no ambiente clínico, na atuação em Varas de Família, Infância e Juventude, nas Organizações e na Psicologia do Esporte.

Discursos e práticas que historicamente produzem desigualdades sociais e de gênero precisam ser analisados e combatidos por uma Psicologia que se apresenta e se representa, por uma categoria eminentemente feminina, e que se opõe a práticas que perpetuam exclusão e desigualdades. Um vocabulário na profissão que destaca o feminino, não é um preciosismo, é uma luta por direitos. A linguagem transmite ideias, formas de pensar, por isso a adoção de uma escrita gendrada é uma posição política importante para a Psicologia que defendemos. Na medida em que questiona a subjugação do feminino ao masculino, a invisibilização do feminino, as produções subjetivas sexistas, o sistema hierárquico de gênero…

A Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019 envolveu de modo diferenciado, a mídia e o público. Mulheres (e também homens) se mobilizaram para assistir o torneio. As transformações estão ocorrendo. Aos poucos, o futebol feminino sai da imposta condição de subclasse e vai conquistando seu devido espaço no mundo dos esportes. Reflexo destes tempos em que as mulheres lutam por seus espaços e avançam no anseio e na construção de uma sociedade justa.

A Psicologia não pode e não deve estar alheia a este fenômeno que rompe com uma estrutura patriarcal patologizante.

É tempo de defender a igualdade de gênero!

* Este texto foi escrito por Maria Ester Falaschi (CRP 08/06606) e por Marina de Pol Poniwas (CRP 08/13821).

Maria Ester Falaschi é Especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho pela UEL. Fez também algumas formações, como MBA em Liderança e a Gestão de Pessoas pela FGV São Paulo, Dinâmica dos Grupos pela SBDG e Coaching e Consultoria Interna de RH pela Doval e Associados. Além disso, tem Formação em Psicanálise pelo Núcleo de Psicanálise de Londrina e outros cursos na área clínica. 
Atua há mais de vinte anos com o desenvolvimento de indivíduos, grupos e organizações, em empresas, na clínica e em universidades. É membro do Grupo de RH de Londrina e já atuou como membro e coordenadora na Comissão de Psicologia Organizacional e do Trabalho do CRP Londrina.

Marina de Pol Poniwas já trabalhou no SUAS, em âmbito municipal, como psicóloga do CREAS e como coordenadora da Proteção Social Especial, em Curitiba. Atualmente trabalha no Judiciário, nas Varas de Família, Infância e Juventude. Integra a comissão de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia - CFP (gestão 2017-2019), representa o CFP no Movimento pela Proteção Integral de Crianças e Adolescentes e também participa de blocos feministas e LGBTI, como batuqueira.

#PraCegoVer #LegendaAcessível Duas mulheres da Seleção Brasileira de Futebol, sendo uma Formiga e a outra Marta, que, ao comemorar um gol, ergue a perna direita. Com a perna flexionada, aponta para a chuteira, mostrando o símbolo de igualdade de gênero.

Orgulho e preconceito: Por que marchamos pelo orgulho LGBTI+?

Muitas vezes nos questionamos por que o maior evento LGBTI+ do mundo se chama “Dia do Orgulho” e para elaborar essa questão resolvemos dialogar com o coordenador da Associação Paranaense da Parada da Diversidade - APPAD, que realiza a Parada pela Diverdidade LGBT+ de Curitiba, Marcio Marins de Jagun, sobre nossas experiências pessoais, psicologia, militância, racismo e religião.

Uma das primeiras questões com a qual nos defrontamos foi a própria palavra orgulho, que tanto pode expressar uma característica importante para construção de uma auto-estima saudável quanto um sentimento desajustado de superioridade. Segundo a psicóloga e professora June Tangney (2002) orgulho é um sentimento complexo e paradoxal, cuja faceta negativa está na percepção individualista de atributos globais de superioridade. Por outro lado, o orgulho pode ser fundamentado na experiência de atos positivos, prossociais ou ainda uma reação ao sentimento de vergonha e estigmatização. É deste segundo tipo que estamos falando.

Como Márcio nos conta, a comunidade LGBT+ de Nova Iorque se encontrava em bares nos guetos e era vítima de constantes batidas policiais, que buscavam criminalizar e estigmatizar a comunidade. Na noite de 28 de junho de 1969, essa história foi diferente. Reunidos no bar Stonewall, em Nova Iorque, os frequentadores LGBTI+ do bar foram detidos e abordados violentamente pela polícia, mas as travestis, negras, brancas e latinas do bairro marcharam para o bar e começaram um protesto que encontrou respaldo pela comunidade local. Uma mudança que estava no ar tomou voz e corpo naquela noite. Os protestos se espalharam pelos Estados Unidos e logo por todo mundo. É como reação à criminalização e à estigmatização que até hoje marchamos, proclamando um orgulho coletivo e emancipador contra o preconceito e discriminação.

Seguindo seu compromisso ético com a emancipação de todas as pessoas, a Psicologia não só deve combater as práticas discriminatórias e patologizantes, como deve apoiar as práticas que apoiam uma auto-estima saudável e socialmente engajada. Como nos lembrou a psicóloga Marina De Pol Poniwas, em 1999, o Conselho Federal de Psicologia aprovou a resolução 01, que proíbe profissionais da psicologia de tratar a homossexualidade como doença. Esta resolução visava combater a estigmatização sofrida pelas pessoas LGBTI+ e orientar como devem lidar com o sofrimento causado pelo preconceito contra esta comunidade. O psicólogo Flávio Voight, compartilhou conosco um pouco de sua história, criado em uma família com tradições religiosas fundamentalistas, foi com o apoio de uma psicóloga que ele e sua família conseguiram superar as dificuldades e preconceitos. É este tipo de atitude profissional que a psicologia deve defender, colocando de lado convicções pessoais ou religiosas, e focando no bem-estar e proteção de sujeitos vítimas de opressão. O profissional da psicologia não precisa se abster de ter uma religião, mas jamais pode impor suas convicções derivadas dessa religião àqueles que buscam sua ajuda.i Célia Mazza lembra que quando a/o profissional se julga incapacitada/o a lidar com questões que conflitam com suas posições pessoais, deve encaminhar o caso para outra/o psicóloga/o para continuidade do tratamento.

Infelizmente, nos últimos anos tem se acirrado as investidas equivocadas de grupos fundamentalistas, tentando colocar as convicções religiosas acima da proteção daqueles que buscam ajuda na psicologia. O psicólogo Marcel Pereira, homem gay e cristão, conta que esta percepção de religião e experiências de vida LGBTI+ como incompatíveis, não é uma visão absoluta e que muitas denominações cristãs hoje já conciliam ambos aspectos. Se mesmo igrejas cristãs encontram espaço para acolhimento de diferentes sexualidades e perspectivas de gênero, como pode uma psicologia engajada com a saúde mental e emancipação social, ver uma incompatibilidade?

Márcio ainda lembrou de quando Célia Mazza, psicóloga, participou como representante do Mães pela Diversidade, de uma das paradas de Curitiba. Subindo em um dos trios-elétricos, contou sobre sua experiência como mãe de duas meninas, uma bissexual e outra trans. Apesar de falar como mãe, o fato de ser psicóloga transmitiu confiança às mães que ouviram sua fala, o que teve um papel transformador na vida de famílias que participavam do evento. Isto nos lembra que a psicologia se encontra em um lugar de poder e isto implica na responsabilidade com todas as nossas falas e decisões.

Façamos uma psicologia plural, comprometida e emancipadora.

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